tripa-forra

tripa-forra

não há espaço para a loucura

Coisas
 sobre mim
 contacta-me

doi-me

Junho 22, 2018

doi-me o corpo e alma de tanto respirar
o pó da jornada
embriagada
adormecida no nariz empinado
de tanto filho da puta

sem vista

Junho 15, 2018

Entradas de ar sem vista
Ouvidos sem martelo
Rotina com cheiro a novo
Não há areia nesta praia
Só o caminho de regresso

Estação

[…]

Junho 14, 2018

tive uma visão do futuro; é inevitavelmente catastrófico.

sombra de verde negro

todas as estradas...

Maio 8, 2018

..., todos os caminhos da humanidade vão dar à pobreza. e não há pé de meia que nos salve. pé moderno de meia antiga que não salvará a cabeça e o espirito.

não é desrespeito, é não aceitação

Abril 20, 2018

Não devemos aceitar qualquer forma de abuso físico ou moral mesmo que culturalmente justificado. Não é, em algum sentido, um acto de superioridade moral ou desrespeito cultural é sim, uma forma de luta pela humanidade e igualdade. É paradoxal que para respeitar os seres humanos enquanto humanos tenhamos de negar práticas e crenças, algo que alguns identificam como desrespeito baseado na rejeição e xenofobia. Fico colérico quando me tentam doutrinar a aceitar, por exemplo, o papel social da mulher em algumas culturas ou a justificação religiosa-cultural para a negação de sexualidades. Admito que a vida é de quem a vive e, na negação de qualquer dor ou sofrimento, quem aceita esses, entendidos por mim, abusos, não os vê enquanto tal e, consequentemente, não é abusado para si. Esta relativização globalizante e apatia é inoperante e permeável. Há que impor o espirito da resistência e lutar pela liberdade, pela humanidade, porque esse é o mundo que quero, mesmo que, de quando em vez, a "violência" contra a "violência" seja inevitável. Podemos começar por não aceitar tudo o que nos impõem, das coisas simples como o Facebook, Google, Apple, Whatsapp, entre outros, às coisas menos simples como: “se elas aceitam viver assim e são «felizes», que mal tem serem propriedade do marido tal qual um jumento?”

[...]

Abril 4, 2018

tive uma visão do futuro; é inevitavelmente catastrófico.

foi encontrada

Março 2, 2018

… esventrada nas escadas da Igreja. Nunca tinha sido visto nada semelhante naquele pacato bairro onde os bons costumes e a passividade reinavam, como se de uma condição física se tratasse.

Primeiro pensaram que pudesse ser um assalto. Rondara por ali um estranho de aspecto duvidoso. Não lembrava ninguém que alguma vez tivessem visto. Gritaram: – “Foi ele com certeza, um estranho” mas, rapidamente se provou que não poderia ter sido. A vítima estava na posse de todos os seus pertences e o estranho tinha abandonado o bairro ainda a vítima estava viva, jantando, no seu pequeno apartamento a que chamava carinhosamente – pardieiro.

As velhotas, que todo o dia à janela observam o burburinho pouco buliçoso daquelas ruas quase mortas, acreditavam que num crime passional. “Mas não conheciam à pequena qualquer relação, amante, amigo ou familiar” – refreou o padre. Não fazia qualquer sentido, e depois de muita argumentação o comissário ergueu a voz: “Podemos afirmar que não se tratou de um crime passional”.

As horas passaram e a azafama era grande junto dos agentes da policia ali presentes, as discussões e argumentos fortes, até que um agente de base conseguiu desvendar todos os elementos básicos deste crime. Passou então a explicar:

“Sabendo nós e toda a nação que não é capaz o Estado de realizar uma previsão sobre o estado das coisas, a economia e que todas as outras artes divinatórias da ciência moderna não foram capazes de eficazmente prever o que todos sabiam, coube assim, ao estado recorrer a outros meios previsionais. Por conseguinte, a vítima é vítima do estado que a esventrou para, à luz da lua, ler nas suas entranhas, nas entranhas de um povo, o seu reles futuro. A vítima é no fundo uma vítima da circunstância.”

As velhinhas suspiraram de alívio, o padre arfou um graças a Deus, a mulher do comissário abraçou o marido com um “vamos querido”, o comissário limpou os beiços e num tom vitorioso disse: – “Desvendei mais um crime”. O presidente da república, o primeiro ministro, as aias do primeiro ministro, o presidente da câmara e as suas damas de honra, todos aplaudiram, seguiu-se o povo, o povinho e as crianças tão lindas e inocentes. De um rasgo, o presidente afirma dirigindo-se ao comissário: “Este homem merece uma medalha de honra”, e os já mudos aplausos fizeram novamente ouvir-se.

O pobre agente, agora completamente esquecido, olhava a vítima, lívida, nas escadas de rubro tingidas, as tripas luzindo à luz da lua. Pensou: “o que será o jantar?”

olhos de…

Fevereiro 5, 2018

com uma estocada seca, perfurei-lhe a nuca. o calor nas mãos revia cada centímetro do cabo em osso. sssssssss. ouvia. um suspiro. roubei-ta, pensei. com uma estocada seca.

Robert Walser, morto na neve

55 DH

Janeiro 9, 2018

O aquecimento global, a escassez de água, a guerra, a destruição. 2/3 da população mundial partiu em busca de um novo lugar para viver, os restantes, que ficaram na terra, desesperados, procuraram sobreviver sem sucesso, apenas 1% da população mundial conseguiu resistir. Um novo calendário foi criado. Um novo ano 0 marcou a fuga. Na terra esse período ficou conhecido como o “Fim da Humanidade”.

A catástrofe, marcada pelo degelo, variações de temperaturas extremas, propagação de doenças, destruição de infraestruturas, insuficiência de recursos e energia. Os que ficam aprendem a sobreviver. Os que partiram desapareceram da memória.

A destruição de grande parte do mundo, deixou livre poucos espaços habitáveis onde os mais ricos e poderosos conseguem criar zonas temperadas, redomas onde vivem, controlando os poucos recursos disponíveis. Os mais pobres acabam por cair nas mãos do calor excessivo e da falta de água não se conseguindo proteger. Deste caos surge uma doença que os afecta levando-os a resistir a tudo… menos à vida. Nos campos gelados os seus cadáveres e espíritos vagueiam.

vai de retro Satanás

Outubro 31, 2017

Hoje, 31 de Outubro, véspera do dia em que se honram os mártires e santos, é noite de expurgar todos os males. os demónios que nos assolam e nos podem assolar na nossa santidade. Se hoje o maior demónio somos nos e nos nossos hábitos, houve tempos em que os demónios tinham cara. Nunca a mascarada foi tão actual, mesmo sem representação e caracterização.

Fica para o ambiente mercantil desta importação anglo-hollywoodesca um filme pré hollywood, mas muito pertinente. Já afugentou os seus demónios?

Nosferatu, 1922 de F.W. Murnau

Há quantos dias

Outubro 6, 2017

Tens a barriga cheia?
Gritas com dores nas costas… “Estas dores matam-me”
Há quantos dias comes sem ter fome
e arrotas farto de ti, imóvel
Há quantos dias acordas com o cheiro a wifi, bluetooth, fibra e coisas demais?
e rebolas nos suaves lençóis do contentamento?
Há quantos dias o maior aborrecimento
que vives é um mau episódio da guerra dos tronos?
Há quantos dias cagas de telefone na mão
pling! três em linha
Há quantos dias morreste?

Stalker

Março 8, 2017

Stalker é um filme realizado por Andrei Tarkovsky e lançado em 1979. É sem dúvida um dos meus filme favoritos e uma inspiração. Não sou, nem tenho pretensão de ser, um entendido em cinema e o que possa escrever será sempre do ponto de vista de um leigo e de um admirador. O meu objectivo, além do egoísmo de falar do que gosto, é levar alguém a ver este filme.

Este filme não é fácil nem tem um andamento rápido, digo-o de antemão. Navega nos seus diálogos e imagem num profundo conflito psico-filosófico. Tem elementos de ficção cientifica, de certa forma uma distopia, e de drama que deixa qualquer espectador atento desconfortável. É essencialmente um filme poético.

O filme está dividido em duas partes e visualmente marca, através da cor, as cenas passadas na zona, coloridas, das passadas no “real”, a sépia.

Ao longo das suas mais de duas horas, o filme leva-nos a um lugar, a zona, onde o inexplicável acontece, pois as regras da realidade (o que será isso?) não se verificam, pelo menos da forma como é esperado. A zona é um lugar proibido, resultado de um desastre, e interdita pelas forças governamentais.

Na zona existe um lugar mística, o “quarto” (room), que quando alcançado pode tornar qualquer desejo realidade.

A personagem principal, o Stalker, trabalha na zona, guiando através dela aqueles que a desejam visitar.

O filme começa com aproximadamente 10 minutos sem qualquer diálogo, numa viagem até ao Stalker e à sua vida, marcada por uma pulsão por regressar à zona, mesmo contra a vontade da sua mulher.

O início do filme é definitivo, o Stalker tem de escolher entre voltar a deambular nos seus desejos ou satisfazer as necessidades naturais, organizadas da vida familiar.

Conhece, num bar as duas outras personagens do filme e seus clientes, o escritor e o professor. Ao longo do filme as personagens são apenas tratadas pelas suas profissões, mantendo-se anónimas. Este anonimato ajuda a separar a personagem das suas ideias, discussões, conflitos, e carrega ainda mais de significado toda a acção.

Após romperem o bloqueio à entrada na zona, os três chegam, num pequeno carro de linha – aqui o filme abandona o seu tom sépia, e as imagens urbanas opressivas e lamacentas, para adoptar a cor e ficar recheado de verde, em cenários onde a natureza tomou conta daquilo que foram restos da civilização.

A partir deste momento, na zona, o Stalker explica as regras de sobrevivência ao professor e ao escritor – façam tudo o que vos disser para fazer, todos os perigos da zona não podem ser vistos, e que o caminho que vão seguir não existe, muda constantemente, e pode apenas ser sentido. A zona, não é apenas um lugar, tem uma espécie de “alma”.

O escritor é um homem amargurado, de certa forma zangado com a vida, e que anseia visitar o quarto com o objectivo de não perder a inspiração. Ao longo do filme o escritor é a personagem mais céptica, pondo em causa os conselhos do stalker. O professor, pelo contrário, é mais receptivo mas difuso nas suas intenções. Por momentos confidencia que gostava de estudar a zona e ganhar o prémio Nobel. Ao longo do filme, o professor, procura sempre manter uma mochila, cujo conteúdo é desconhecido do espectador e dos personagens, sempre perto dele.

Ao longo dos primeiros momentos da viagem, os três vão conversando sobre a zona, as suas intenções e discutindo alguns assuntos que podemos enquadrar na discussão filosófica geral do “sentido da vida”. Esta viagem é acompanhada por um cão negro que os vai seguindo.

Ao longo desta viagem o stalker conta histórias sobre a zona, lançando ainda mais a desconfiança. Nestas conversas e reflexões a incerteza sobre a zona vai crescendo, sendo um dos pontos centrais se o quarto realiza intenções e desejos concretos ou os desejos escondidos no subconsciente dos personagens.

O próprio conhecimento da zona pelo Stalker, começa a ser posto em causa, nomeadamente pelo escritor, a viagem, de certa forma sem sentido, ajuda-o nas suas incertezas, e começa insistentemente a questionar o mesmo sobre como adquiriu tal conhecimento. O Stalker fala de um antigo stalker, Porcupine, que lhe ensinou tudo o que sabe. A história deste stalker, então falecido, acaba por ser uma alegoria à ganância humana e à utilização de conhecimento privilegiado e dos desejos de outrem em proveito próprio.

Quando finalmente chegam ao quarto são revelada as verdadeiras intenções, que não revelarei para não estragar o filme a quem quer ver. Fica apenas que a visita ao quarto é reveladora para todas as personagens. E que a relação entre o que queremos ser, o que intimamente desejamos, e o que mostramos aos outros, se relaciona entre sentimentos de conquista, culpa e clarividência.

A chuva lava o final desta cena e os três regressam ao bar onde tudo começou, continuando seguidos pelo cão negro. Este regresso marca o reencontro do Stalker com a sua mulher, que estranha o cão que Stalker admite ter tido pena de abandonar. Nesta fase o Stalker é confrontado com a vontade da mulher visitar a zona, aí ele vacila, fica com dúvidas sobre a zona e a capacidade que tem de realizar os sonhos, em particular desiludir a mulher que poderia ver os seus sonhos não concretizados.

O filme caminha para o final onde a mulher, olhando a câmara entre numa reflexão sobre a sua vida, sobre os desafios da mesma para ela, ele e os seus filhos.

O filme termina com uma demonstração do inexplicável no real, quando a filha do casal é capaz de mover um copo sem lhe tocar, esta cena é seguida pelo quotidiano, um regresso à normalidade, ao início, com um comboio a passar…

A Montanha Mágica

Fevereiro 10, 2017

Jodorowsky proporcionou-me algumas das mais deliciosas leituras em banda desenhada, em particular “O Incal” com o falecido Moebius, as suas experiências cinematográficas foram algo que, na minha juventude sempre me estranharam, na realidade ainda estranham. O sentimento de estranheza talvez seja um dos principais sentimentos, provocado na minha modéstia opinião, pelo surrealismo base dos seus filmes.

A Montanha Mágica é talvez, a par de El Topo, o seu filme mais conhecido. Um filme recheado de simbolismo(s), que explora no seu fio condutor a dicotomia real – sonho/surreal. Neste filme, onde podemos identificar duas personagens principais, o Alquimista e o Ladrão. O Alquimista é um mentor, um facilitador, ajuda o ladrão a esquecer os seus fantasmas, e na busca da imortalidade, conhecer a sua própria mortalidade e realidade.

É um filme que não obedece aos normais padrões do cinema, não tem uma história que se traduza em todas as cenas, tem antes cenas que ajudam a traduzir a história, sem antes, por si só, serem pequenos manifestos. É exemplo a apresentação cuidada, satírica das personagens que acompanham o Ladrão e o Alquimista na busca da montanha mágica, ou mesmo, todos os encontros dos mesmos nessa viagem.

A primeira parte do filme apresenta o Ladrão e o seu companheiro deformado até chegarem ao templo do Alquimista. Nesta viagem os dois são confrontados com uma sociedade excessiva, do espectáculo, onde as mais bizarras cenas são vistas com curiosidade pelos Turistas que, as vivem como espectadores curiosos, participantes, que registam tudo com sorrisos e leviandade.

O Ladrão acaba, em determinada cena, por servir de molde a estátuas de Cristo, objectos mercantilizados por personagens vestidos de freira e romanos, numa crítica clara ao Catolicismo Romano em particular, e ao lado mais “comercial” das religiões em geral. O Ladrão depois de ver todas as cópias, acaba por as destruir, exceptuando uma com a qual deambula pela cidade, seguido do seu amigo deformado e um grupo de prostitutas (religiosamente prostitutas), acabando por a destruir também, após procurar coloca-la numa Igreja decadente sem sucesso, comendo a cara, neste caso a sua própria cara.

O caminho leva-o então à torre do Alquimista, onde após o tentar assassinar, rende-se ao seu carisma, e aceita-o como Mestre. Neste conjunto de cenas os cenários são ricos e recheados de simbologia, fundamentalmente do tarot e do horóscopo. O alquimista, mostra então ao ladrão, transformando os excrementos do ladrão em ouro, o valor da materialidade. De seguida oferece-e para o guiar, conjuntamente com mais seis personagens, a caminho da Montanha Mágica onde poderão descobrir os segredos da imortalidade.

Estas personagens são criticas ideal tipo à sociedade, o industrial, o conselheiro ministerial, a fabricante de brinquedos que manipula a infância, o carrasco, o artista que produz colecções de arte sazonais, etc…

Este grupo inicia a viagem, nessa vão-se despojando do passado, do materialismo, do que mais gostam, até chegar à montanha onde os 9 “quase-deus” se sentam, e que os mesmos devem despojar para atingir o conhecimento da imortalidade.

Neste caminho o Ladrão é sempre seguido de perto por uma prostituta, acompanhada de um chimpanzé, que lhe declara seu amor.

Não querendo revelar muito do filme para não vos estragar, e fazer estranhar esta experiência, este é um filme muito explicito, carregado de alegorias sexuais, de morte, fundamentalmente escatológico, não recomendado a quem goste de histórias lineares, limpinhas e perfeitas. Este é um filme imperfeito, de certa forma profético, acima de tudo surrealista que procura mais do que tudo levar o espectador a um conjunto de experiências que o façam reflectir sobre as coisas simples da realidade, as coisas comuns; é claramente um filme surrealista e a expor o real.

acordei

Abril 29, 2016

acordei sentado
o respirar no mar enegrecido
nas águas os olhos ponte
o barco esquecido.

acordei sentado
na barca cama razão
se pé na invicta cidade
que é liberdade que temos nas mãos.

escrever

Abril 5, 2016

gostava de saber escrever.
não sei.
apenas organizo palavras.

sono

Abril 1, 2016

o sono completa
preenche o espaço
que te separa da escravidão
servo de ti
dono disto e aquilo
resta-te o sono
e o espaço
que te separa
do que és
cativo da morada
que te tranquiliza
no que és
no sono.

definição

Abril 1, 2016

se existisse
palavra
verso
tábua
que pudesse descrever o que sinto
escalaria montanhas
correria as estrelas
desafiaria a morte
para a encontrar
e
numa derradeira conquista
te dedicar esse axioma
mas nada
em nenhum momento
pode transparecer tal
confusão
a que uns chamam coração
outros ilusão
mas nada
em nenhum momento
poderá descrever
quiçá em sonhos
aquilo que o Homem comum
canta ilustre
o extravagante
a inflorescência
invoca de amor.

aqui

Abril 1, 2016

aqui
ficaram os resíduos da nossa voz
nesta caixa
de
areia

túnel

Dezembro 29, 2015

num túnel só temos três caminhos possíveis, em frente, o regresso ou o caminho da imobilização.

o salto (2)

Novembro 20, 2015

as fotografias. relembro-as todas. as que tirei ao longo destes anos em que a observava. como pude ama-la tanto. perder assim sem saber, sem nada fazer. foram anos, mais de dez, em que todos os dias acordava para a ir ouvir na pastelaria. «bom dia senhor fernando, o costume». hoje, pela primeira vez na minha memória não bebeu um café. entregou o euro-milhões e despediu-se, com o tom caloroso que lhe era habitual. as fotografias. as colecções de fotografias que me aqueciam, ia tirando. pensa. quem a empurrou... não posso deixar este frio percorrer-me. na máquina uma última foto, de costas, contemplando o sol que naquela manhã aquecia e quebrava a frescura da manhã. ontem o ex-marido veio visitá-la. demorou pouco mais de meia hora. saiu era já oito menos quinze. vestia aquelas calças listadas e aquele polo azul bebé que transparecem uma preocupação desmedida. aquele cabelo e barba de dois dias. deve gastar mais em cremes que um condenado com psoríase. há um mês pegou-se com a dona arminda, do quiosque. tinha vendido uma revista que ela tinha encomendado. "não quis perder o cliente, a si conheço-a há tanto tempo, não pensei que ficasse chateada". nunca percebi a fixação dela pelas revistas de viagens. nunca saiu daqui. nem nas férias saia de casa. talvez a ajudasse a sonhar, viajava sozinha. construía os seus mundos. depois talvez se fechasse em casa para não desiludir os seus devaneios. lembro-me bem. comeu uma salada. recusou o atum. não comia animais há mais de três anos. justificava ao quinzinho, há uns meses, depois de ele lhe recomendar a vitela no forno - "não há fome que justifique tal violência". fotografei-a nesse dia, entrava no carro com um vestido verde. leve. que dançava ao vento. hoje, fixou-se no mar. continuo a procurar as caixas de fotografias. procuro aquela, do dia em que o ex-marido lhe prometera vingança por ela ter ficado com o mercedes com dez anos. "eu amo este carro minha cabra". nada a demoveu. e o carro, dia após dia, ficou ali, inerte, vai fazer quatro anos. nunca mais viu o motor funcionar. a ferrugem invadiu os cromados e as ervas nasceram junto às rodas. uma peça num quintal. uma estátua. "eu amo aquele carro". e eu amo-a. em mim não saltas-te. encontrarei quem te empurrou.

o salto (1)

Novembro 17, 2015

o sol aquece a aragem humedecida. o mar nega a terra. não desiste. que contempla ela? olhar penetrante no horizonte. como se o momento fosse interminável. o sol continua a subir, rasga a escuridão que ainda resiste pintando o céu e cegando o olhar. uma lágrima e um piscar de olhos. procuro no bolso do casaco, colocado no banco de trás, um lenço e os óculos-escuros. os breves instantes em que enxugava os olhos bastaram para a perder de vista. não contemplava mais o horizonte. procuro furtivamente onde poderá estar. as rochas nuas descobrem qualquer presença. abro a porta do carro e procuro-a. aproximo-me do horizonte. rochoso. olhando ao fundo dos rochedos o seu corpo contorcido de um salto. um olhar interminável e um caminho agora interminável com o fim que persiste. fica na memória o mar a banhar, não desistindo, as rochas e o verde do seu vestido. regresso ao carro. regresso a casa. há anos que a observo. porquê o salto? o olhar interminável? quem te empurrou? ninguém salta sozinho...

o sol não é suficiente

Novembro 13, 2015

queremos sempre mais, custe o que custar

encontrei o meu interior perdido no meu exterior

Maio 21, 2015

eu encontrei o meu eu interior perdido no meu exterior; ou seria o contrário? o professor disse-me a verdade. não acredito nele ou perdia-se o glamour. a mentira permite escolher, a verdade aprisiona no seu totalitarismo. necessito de procurar o meu exterior no meu eu interior; ou será o contrário?

fast-tudo

Abril 4, 2015

vivemos uma sociedade fast-tudo. não que tudo tenha de ser rápido como nos restaurantes de fast-food. padrões. processos. indicadores de qualidade. fast.... até a maior merda pode ser fast-tudo. não interessa o que comes, o que formas nas universidades, por quem és governado, a forma como és tratado num hospital. desde que se cumpram os padrões, se certifiquem os processos. se cumpram os indicadores de qualidade.

zumba na caneca, ora na caneca zumba.

fast-tudo. e se para a alimentação apareceu o slow-food. alguns já alertam. não queremos esta sociedade. paradoxo. queremos criatividade. queremos diferença. queremos pensadores livres. como? fast-tudo…

o que é que isso interessa?

Janeiro 16, 2015

parece-me por vezes que caminhamos para dias cada vez mais isolados. isolados porque desprovidos da frontalidade necessária, a que, a transparência, cultive relações honestas, ao invés de agradáveis.

agradáveis podem ser também as relações transparentes, mas, a obscuridade e a corrosão do caráter extingue-se numa mascarada.

os últimos dias tenho sentido o sacrifício da minha integridade aos interesses de outros, que usam e abusam da palavra, para conseguir conforto.

o medo sempre foi um dos maiores catalisadores sociais, ao mesmo tempo, que dourado a outros interesses, o maior inimigo da transparência.

o que interessa o que somos se o que vai valendo se extingue de boca-em-boca? nada.

nada interessa mais que a palavra sentida e o caminho que a orienta.

É árduo o caminho dos vivos

“Nothing is so painful to the human mind as a great and sudden change.”

Mary Shelley, Frankenstein